domingo, 14 de julho de 2013

RN: Mestre Sérvulo, o último dos grandes mestres de São Gonçalo do Amarante

Sérvulo: o grande mestre

Pauta Jean Custo

Vivendo modestamente e firme em suas convicções sobre a importância das raízes culturais em tempos modernos definidos pela globalização, o mestre Sérvulo Teixeira desponta no cenário de São Gonçalo do Amarante, importante berço cultural do Rio Grande do Norte, como o último dos grandes mestres folclóricos.

Falecido na manhã deste domingo (14), deixa uma trajetória de mais de 07 décadas de criatividade e de dedicação ao folclore do Rio Grande do Norte.

Sérvulo Teixeira, aos 86 anos de idade, era o mestre do Bambelô da Alegria, mestre dos Congos de Calçola e Brincante do Pastoril Estrela do Norte.

Sua morte pegou todos de surpresa, segundo informações de São Gonçalo do Amarante. De acordo com seus familiares, ele estava bem de saúde, foi ao forró dos idosos normalmente no sábado (13), e na manhã deste domingo se sentiu mal quando se preparava para ir a um piquenique. Foi levado para o hospital, mas não resistiu aos problemas respiratórios.
Sérvulo vivia de um salário mínimo que recebia do Funrural, conquistado pelo tempo de trabalho na agricultura. Vivia também distante dos holofotes da mídia, que tem sérios problemas de visão quando se trata de autênticos nomes da cultural local. 

Vale destacar trecho do texto/entrevista do historiador Moacir Farias postado por Marcos Imperial

Congo sem Saia - Sérvulo aprendeu com os primeiros mestres de que se tem notícia em São Gonçalo. Já aos 13 anos, estava enturmado com Pedro Guajiru, mestre do Boi de Reis e conhecedor nato das tradições populares. Sérvulo tentou montar um grupo de Chegança, na comunidade da Sombra, mas não vingou por falta de gente. Depois conheceu João Menino, a quem Deífilo Gurgel disse ter visto um "alumbramento" ou classificou como das apresentações mais bonitas que já viu em vida. Com João Menino, Sérvulo aprendeu as cantorias e passos do Congo de Saiote. Mas haveria um divisor de água na apresentação no Mercado da Cidade Alta, onde hoje funciona o Banco do Brasil, a convite do então prefeito Djalma Maranhão.

“A gente em cima do palco, se ajuntou estudante pra ver a gente”. E você sabe que estudante é tudo sem vergonha, né?

Vida modesta, folclore rico
Eles tudo rente ao palanque. Aí nós lá se apresentando e quando viram que João Mãozinha tava sem cueca, tiraram o coro dele". Pouco depois do episódio, mestre João Menino morreria. "O Congo de Saiote passou um a dois anos parado, aí eu assumi e num quis mais esse negócio de saiote não. Doutor Deífilo aconselhou eu permanecer, mas num quis não. Muitos, principalmente os meninos, não queriam vestir. E já pensou homem ir brincar de saia?". Sérvulo desvirtuou, de certa forma, a tradição e passou a brincar o Congo com calçola. E nisso se vão quatro décadas.

Fandango - O Fandango, Sérvulo aprendeu com outro ícone da cultura popular são-gonçalense: mestre Atanásio Salustino, pai de Dona Militana. Hoje, o Fandango de São Gonçalo é o folguedo mais ameaçado. Está parado há anos. E só quem conhece as jornadas que dão ritmo à dança é mestre Sérvulo e João Viana, ambos já idosos e de saúde comprometida. O grupo Bambelô da Alegria é cria do próprio mestre Sérvulo, que aprendeu com Antônio Basílio, que brincava informalmente pelos redores do distrito de Santo Antônio do Barreiro, onde Sérvulo mora hoje. "Ele nunca formou grupo. Aí tive a ideia de juntar e começar a brincar. Já faz 24 anos", lembra o mestre, orgulhoso.

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