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Chegada dos médicos cubanos evidencia subdesenvolvimento no sistema público de ensino superior no Brasil

Por Francisco Epaminondas (Chico Lopes)

A grande questão aberta com a chegada dos médicos cubanos é a comprovação de que o Brasil tem um sistema público de ensino superior subdesenvolvido. É exatamente a constatação implícita do subdesenvolvimento brasileiro que estabelece um choque de realidade que indigna, surpreende, desmonta e revolta a  muita gente.

Só que essa revolta deve ser canalizada para seu real destino: o arcaico planejamento do Ensino Superior brasileiro, inteiramente ultrapassado e nefasto ao próprio povo brasileiro.

Cuba está atrás do Brasil em milhares de itens que se referem a desenvolvimento econômico, progresso social e avanço científico.

Mas Cuba está muito na frente do Brasil quando o assunto é formação eficiente de médicos. Se alguém duvidava disso, agora não duvida mais. Cuba está exportando médicos para o Brasil e a constatação que se tem é que realmente o país estava precisando disso.

Agora Felipe Camarão vai ter médico, cubano
Segundo dados do Ministério da Educação, O Brasil é o 2º país em número de faculdades de medicina no mundo, só perde para a Índia.

O Brasil forma por ano aproximadamente 16.000 médicos, mesma quantidade que os Estados Unidos forma. Acontece que os Estados Unidos tem uma população bem maior que a brasileira.

Então por que estamos com falta de médicos e os Estados Unidos não?

A resposta para isso não tem nada de complexa, é simples. O sistema de entrada no Ensino Superior Público do Brasil, fundamentalmente nos cursos considerados mais importantes, é arcaico, privilegia a manutenção do status quo vigente desde a época das 'Casas Grandes e Senzalas", e discrimina de forma bonitinha, mas ordinária, os pobres, moradores de periferia e de municípios interioranos.

Os vestibulares causaram danos imensos ao progresso social e cidadão do povo brasileiro como um todo. O ENEM é mais aberto e representa avanço, mas ainda não é o ideal.

Enquanto em Cuba, o sistema educacional garante vaga para estudantes que moram em suas periferias (tipo o bairro populoso de Felipe Camarão em Natal), em Natal não dá pra se imaginar um morador de Felipe Camarão frequentando o curso de Medicina na universidade pública, na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

Também não dá pra se imaginar um morador de Serrinha dos Pintos, Paraná, Venha Ver, Messias Targino, e muitos outros municípios do sertão do Rio Grande do Norte frequentando o curso de Medicina na UFRN. Curso de Medicina esse, é bom que se diga, pago com o dinheiro do contribuinte - o que inclui o contribuinte da periferia e do interior.

Cursos de Medicina elitizados, profissionais formados elitizados, vida real elitizada. Médicos (de calça e de saia) que torcem o nariz para bairros como o de Felipe Camarão, que não querem nem ouvir falar em trabalhar no Sertão. Médicos que se avolumam nos hospitais mais sofisticados das capitais ou procuram, utilizando verba familiar, montarem seus consultórios nos centros urbanos.

16.000 médicos são formados anualmente no Brasil, mas não tem médico na periferia, não tem médico nos municípios do interior. Isso porque eles foram selecionados para a universidade pública sem que se levasse em consideração os interesses do povo. Pensou-se em tudo, e continua se pensando, menos nos interesses do povo.

Está na hora de Felipe Camarão ter seu lugar garantido na universidade federal pública. Lugar que deve ser ocupado por alguém que saiba, de antemão, que terá que trabalhar lá. E que esse alguém saiba, de antemão, que irá receber o salário mensal de 10 mil reais, mesmo pagamento feito aos médicos cubanos.

É verdade que os médicos cubanos deverão ficar apenas com 25% desse pagamento, a parte do leão vai para o governo cubano. Mas, como o médico brasileiro não tem a lamentável figura do intermediário no meio do caminho, deve receber o pagamento integral e pago, não por prefeitos do interior, mas pelo governo federal.

Leia também texto de Francisco Epaminondas sobre Médico Cubano

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