domingo, 19 de janeiro de 2014

Rolezinho é luta por espaço urbano que surpreende e mete medo

Rolezinho é shopping de São Paulo
Por Francisco Epaminondas

O fenômeno do "Rolezinho" tem raízes na luta de jovens da periferia pelo espaço urbano.
Essa é a opinião do antropólogo americano James Holston, da Universidade da Califórnia, dada ao jornal Folha de São Paulo.

Espaço urbano que sempre foi difícil para os pobres. Difícil para conquistar uma moradia própria. Difícil para conseguir manter-se nessa moradia. Difícil para ter acesso a áreas de lazer e entretenimento. Difícil, diante do quadro de abandono atual, até para manter-se vivo.

Em tempos de redimensionamento do próprio capitalismo, que procura a todo tempo se reinventar e daí sua longevidade, o espaço urbano continua sendo difícil para quem é periférico.

Nos modernos shoppings, os frequentadores percebem pela maneira de se vestir quem está "sobrando", quem não "devia estar ali". Percebem e torcem a cara. Isso não tem outro nome: é discriminação mesmo.

Não existe classe social mais viciada na arte da discriminação do que a classe média. Até porque ela também sofre forte discriminação. De vez em quando tem alguém no andar de cima lembrando a ela que, com dinheiro contado, não dá pra voar alto.

A periferia tem se insinuado por várias áreas das cidades. Tem buscado, até por ser mais volumosa em matéria de quantidade de gente, avançar rumo aos espaços mais centrais. Isso tem feito com que a classe média alta se reposicione para outras áreas, ainda inalcançáveis pelos pobres. Áreas que viram condomínios e que aprisionam quem mora nelas, mas evitam a penetração de periféricos.

A luta por espaço chega agora as verdadeiras catedrais da nova civilização, os modernos shoppings. Os jovens da periferia, aliados a jovens de classe média, procuram penetrar em grupos nos sofisticados estabelecimentos. Em grupos porque individualmente sofreriam algum tipo de discriminação.

Em grupo impõem respeito e até medo. O problema, ou solução, é que o medo está chegando aos detentores do poder, da turma que vive da manutenção do que chamamos de establishment.

O "rolezinho" é uma espécie de passeio marcado por jovens na Internet que intimida o establishment e surpreende a grande mídia. Dependendo da reação do aparato do poder oficial e da maneira como a grande mídia reporta o fenômeno, o "rolezinho" pode se tornar "rolezão".

Isso acontecendo, a luta por espaço urbano pode virar a retomada das grandes manifestações e a insatisfação da população com os serviços públicos nas áreas de Educação, Transporte, Saúde e Segurança.

Insatisfação da população com os gastos de mais de 33 bilhões de reais com a Copa do Mundo, enquanto falta esparadrapo nos hospitais, gasolina para os carros da polícia, e escolas públicas boas para as crianças e jovens do povo.

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