terça-feira, 26 de abril de 2016

Macau que não existe mais...

Por Tadeu Oliveira

A casa onde eu morava não existe mais, só há um pouco de lembrança e algum resto de esperança de um lugar que faz parte de Macau, região salineira do Rio Grande do Norte.

Minha casa ficava antes da “Rua da Frente”, rua sem nome, antes de qualquer sinalização urbana, que funcionava como ponto de apoio de quem partia ou chegava à cidade.

Era um lugar de apoio para alguns sem tetos, sem destinos, que aos pouco, com permissão sei lá de quem, se encontravam e se abrigavam por lá.

Foto mostra a usina na entrada da cidade
Eu vivia junto de mais sete famílias, dentro de uma antiga usina sem divisórias, muros e privacidade. Um recanto distante de escola, mas, no qual, existia possibilidade de aprendizagem, trabalho e expectativa por melhorias.

Dos tapumes das janelas de minha casa, olhava o horizonte do encontro do rio com o mar, sem maldade e agressão a natureza.

Admirava as grandes embarcações que conduziam sal ao porto e gostava da euforia dos pescadores em pequenos barcos que navegavam entre o rio e o mar.

Minha casa não contava com porta na frente nem aos fundos. Ao lado, carros velhos enferrujados reportavam um passado empreendedor, gerador de emprego, que ao longo do tempo ficou pra trás, não existe mais.

Para chegar aos fundos da casa, eu tinha que pular resto de embarcações para ter acesso ao quintal. Quintal sem plantações, sem flores e sem brinquedos infantis, mas com bastante vento, espumas de sal e recanto de esconde-esconde.

Para chegar ao banheiro de minha casa, caminhava num improvisado trapiche em direção a beira do rio. O banheiro era feito de tábuas lascadas e brechas de todos os lados.

O belo do banheiro com vistas para o mar era que as brechas das tábuas propiciavam a oportunidade de admirar a boca da barra em dia de maré alta e noite de lua cheia.

Recordo que não sabia definir bem a diferença entre sal e a malacacheta, e que tinha que percorrer alguns quilômetros do centro da cidade para chegar a minha casa. Nunca esqueci que minha sandália tipo “japonesa” de tiras vermelhas era abotoada com um prego. Toda vez que pisava no sal ou na malacacheta havia atrito e o prego despregava, e meus pés iam ao chão e sangravam... No meio do branco do sal corria o vermelho do sangue e o choro de uma criança nada feliz numa infância que buscava atalhos para o adulto.

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