segunda-feira, 16 de maio de 2016

Macau que não existe mais: O som da cidade que vinha do alto propagado pelas bocas de ferro

Por Tadeu Oliveira

O serviço de alto-falante era imperativo em Macau, todos os moradores se ligavam na comunicação que vinha do alto. As bocas de ferro pregadas em postes de carnaúbas amplificavam as falas e acordes musicais. Em outros municípios esse tipo de comunicação era coisa das paróquias, mas em Macau pertencia à prefeitura local, era serviço oficial, chapa branca. Depois ganhou mais corpo com o vitorioso projeto de um empreendedor da comunicação local que atravessou décadas e manteve-se vivo diante dos avanços tecnológicos.

Chico de Paula
A minha situação era bem complicada porque eu morava contra a direção do vento, então fazia esforço tremendo para escutar o que estava sendo falado ou que música estava tocando. Depois da hora do ângelus, quando o ponteiro do relógio marcava 18 horas, escutava notícias chapa branca da prefeitura municipal. 

Como admirador do trabalho de locução radiofônica, certo dia fui ver de perto a rotina do trabalho de locução, a estrutura técnica e a discoteca da Difusora de Macau. Fui lá a convite do locutor Ruy Lemos, um dos astros. Tudo pra mim era uma nova descoberta, afinal só ouvia a voz do locutor no ar, longe daquele lugar mágico recheado de um microfone, radiola (toca-discos), velho amplificador verde e fios por todos os lados.

O estúdio da amplificadora ficava em lugar de destaque na sede da prefeitura, perto da Rua da Frente. Em meio a tantos discos de vinil, com belas capas que estampavam cantores de sucesso na época, como Paulo Sérgio, Roberto Carlos, Leno e Lilian, Waldick Soriano, Elvis, Beatles, Maisa Matarazzo, Diana, Núbia Lafayete, Agnaldo Timóteo, Agnaldo Rayol, Vicente Celestino e Conjunto Sempre Alerta. Havia uma divisória em vidro separando o locutor e o controlista (responsável pela técnica de som), criando um ambiente que eles chamavam de aquário.

Com a modernização própria do tempo e a entrada em cena do locutor Chico de Paula, verdadeiro empreendedor da comunicação, foi organizado um outro serviço de alto-falante com aparelhos mais potentes. A partir de então as mensagens eram pagas e o som chegava com mais clareza em quase toda a cidade. Convites, missas, aniversários, filmes do dia, reclames eram cobrados, principalmente mensagens amorosas com identidade e pseudônimos preservadas. O novo serviço de som de Chico de Paula fez sucesso imediato conquistando o interesse da comunidade.

Chico de Paula fez sua estreia no mundo das comunicações em maio de 1970, com a “Amplificadora Ideal”. Em Macau, ele começou sua carreira radiofônica como locutor animador de palanques nos comícios durante campanhas eleitorais, além de ser divulgador das atrações de cinema, e de atuar na amplificadora da prefeitura.

Mas foi na febre de gravações de fita K7 que Chico de Paula soube empreender seus negócios. Como sua amplificadora se situava perto do antigo “Mata Sete”, região de cabaré, na qual falavam que ele vendia fitas gravadas com músicas de características bregas e mandava recado musical para clientes e usuários do bar.

Comenta-se que em Macau havia um “ouvinte” das bocas de ferro que era solitário, que não recebia mensagem de ninguém e que revolveu oferecer música para ele mesmo. Esse ouvinte escreveu algo assim: "Ticuloso oferece para Ticuloso essa linda página musical".

Chico de Paula é a maior referência de comunicação de massa em Macau, um homem multimídia. Mais antigos lembram que Chico de Paula tinha na própria amplificadora da prefeitura uma referência, o pioneiro locutor Piauí.

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