sexta-feira, 6 de maio de 2016

Macau que não existe mais: trem sem esperança de chegar

Antiga estação de trem de Macau
Por Tadeu Oliveira

As primeiras viagens que fiz a Natal foram de trem. Para chegar à estação ferroviária perto da comunidade do Porto do Roçado, tinha que fazer verdadeira maratona.

No caminho tinha que ultrapassar por dois mata burros, seguindo por uma estrada vicinal preservada de cambitos, palhas de carnaúbas, plantação de cardeiros (espécie de cactos de grande porte), além de carrapichos que grudavam nas meias todas amareladas pelo contato das espumas de águas salgadas e poeiras de Piçarra.

O trem partia sempre às sete horas da manhã em direção a região central. Era uma longa viagem. A primeira parada era na estação de Afonso Bezerra (Carapeba), depois Pedro Avelino, Angicos, Lages, Baixa Verde, Taipu, Ceará-Mirim, Extremoz e finalmente Natal.

Na viagem, minha vontade era chegar à estação de Lages, onde havia sempre outra criança vendendo água em quartinha de barro e cocada de leite. A água servia a todos, com um único caneco de alumínio, coletivo para os passageiros do vagão. Com sede, pacientemente, eu esperava minha vez de tomar água e comprar cocada na paisagística estação do trem em Lages, região central do RN.

Depois disso, esperava atentamente a parada de Extremoz, com pouco dinheiro, aguardava o momento de ser recepcionado com pedaço de grude e uma xícara de café puro. O bom da estação de Extremoz é que havia esperança do final da cansativa viagem, afinal era a ultima estação antes do terminal, na Ribeira, em Natal.

Não esqueço que em cada estação do trem, o cobrador me abordava pedindo a passagem. Tratava-se de uma cartela, que com um alicate de ponta, como uma tesoura, perfurava um pedaço, e pela perfuração, em pedaço em pedaço, ao final da viagem não havia mais onde perfurar, parecia tábua de pirulitos, a cartela feita de cartolina e carimbo da estatal empresa ferroviária, já na existia mais.

Quase chegando à capital, parecia que o tempo e o maquinista esperavam lentamente para que os usuários se alimentassem ao longo da cansativa viagem. Porém, por volta das 14 horas, eu ouvia o apito final, marcando o fim da linha, fim dos dormentes, fim dos trilhos. Vejo a estação da Ribeira, recepcionada pelo rio Potengi e a barulhenta ponte de Igapó.

Peguei carona na imaginação

A mais impressionante de todas as minhas viagens à Natal foi mesmo a definitiva quando deixei Macau pra trás, isso quando Jairzinho, Carlos Alberto, Rivelino e Pelé marcavam história com a camisa da seleção brasileira no México, em 1970. Cada gol uma tristeza em sair do lugar em que nasci sem saber a certeza de destino traçado.

Orientado pelo meu pai, segui de carona, junto com alguns irmãos, em cima de um caminhão carregado de sal marinho, em dia de sol. Em Natal, desembarquei na Ribeira, mas com destino ao bairro das Rocas. Logo me deparo com o teatro Alberto Maranhão.

Ali imaginei ser uma bela igreja católica, e com sinal de esperança fiz o sinal da cruz com olhar firme sobre a estátua de Meira Pires. O teatrólogo era vivo, como vivo era minha ingenuidade.

Cheguei ao bairro das Rocas mais vermelho que camarão pré-cozido em panela de barro. O bairro das Rocas tem gente de todas as tribos e origens diferentes. O bairro das Rocas é resultado migrante, pessoas ocupantes do solo urbano, com visão política progressista, questionadora e cultura diversificada.

Naquele momento, apesar da seleção brasileira brilhar no México, quem brilhava no pelas ruas das Rocas era ABC, América e Alecrim. Já no samba as escolas de samba Balanço do Morro e Malandro do Samba, e os terreiros de umbanda. As Rocas não guardavam nenhuma semelhança com a pacata Macau que deixara.

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