sábado, 18 de fevereiro de 2017

Destaque Potiguar: A visão da reitora da UFRN sobre a realidade da mulher atual

Por Isaias Oliveira
Trecho de matéria publicada na Revista Foco na edição deste mês

Avanços e desafios refletem bem a caminhada das mulheres no contexto da sociedade moderna desde os acontecimentos de 8 de março de 1857 em uma fábrica em Nova Iorque, quando operárias em greve reivindicavam redução da jornada de trabalho, que chegava a 16 horas diárias, para 10 horas. Operárias que, embora trabalhassem dois terços das horas do dia, recebiam apenas um terço dos salários dos homens.

Reitora Ângela Paiva
Avanços e desafios, nesta ordem, representam conquistas obtidas com muita luta, e obstáculos que se apresentam a todo o momento e em todas as partes do mundo. O dia 8 de março, representativo da luta de mulher, que se estende por milênios e que já acontecia antes dos acontecimentos na Nova Iorque de 1857, permanece apontando para um contexto atual ainda injusto e com múltiplos desafios a serem superados. 

A mulher não apenas vota, mas é votada e já comanda importantes países no mundo, é legisladora, está à frente de instituições internacionais, comanda empresas multinacionais, é legisladora e ministra da suprema corte, está antenada com o mundo do empreendedorismo, tem consciência da necessidade de se capacitar profissionalmente, e prioriza a busca do conhecimento. 

Já atua na sociedade com um protagonismo que lhe coloca como sócia do homem no esforço por uma vida melhor e por uma cidadania plena. A presença da mulher nas universidades já é igual ou superior a presença masculina, e sua presença no mercado de trabalho é crescente. Contudo, o mercado de trabalho ainda não dá à mulher o tratamento que é dispensado ao homem. A remuneração da mulher ainda é menor e essa constatação se faz presente nos mais variados setores produtivos da sociedade. 

A mulher ainda é vítima da violência doméstica e urbana, e essa violência permanece em diversas regiões do mundo sendo colocada para debaixo do tapete. 

A luta cotidiana de conquistas não pode perder de vista a trajetória histórica de afirmação vivida por milhões de mulheres ao redor do mundo em busca da dignidade e da cidadania. A reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Ângela Maria Paiva Cruz, chama a atenção para o fato de a mulher ter sido vista historicamente de forma inferior com relação ao homem, e que a conquista de direitos e de espaço tem acontecido, mas a percepção sobre sua realidade não tem mudado na mesma proporção. 

“Nessa segunda década do século XXI, por termos o direito igualitário de votar e ser votada pode parecer que sempre foi assim. O que não é verdade. Historicamente fomos vistas de forma tão inferior, que votar só cabia ao homem. Basta ver que primeira mulher a votar no Brasil foi Celina Guimarães, professora nascida em Mossoró. O fato é de novembro de 1927 e como se vê, um passado muito recente. Talvez por isso a realidade feminina seja tão desafiadora. A maioria continua com os sonhos de suas avós, como, por exemplo, o de ser mãe, e sonhando, também, com outros papeis sociais. Queremos dizer com isso que os direitos da mulher foram conquistados a partir de lutas, mas ainda não estão ao alcance de todas, se considerados principalmente os fatores econômicos e culturais da sociedade patriarcal. O papel da mulher na sociedade atual avança no âmbito profissional, social, familiar, mas ainda há formas de observá-la sob uma visão conservadora, sob censura. Por vezes de forma explícita, por vezes de maneira velada. Em resumo, a sua realidade da mulher no mundo atual é muito paradoxal, uma vez que a conquista de direitos e de espaço de ação aconteceu, mas não mudou na mesma proporção a percepção sobre a sua realidade”. 

A reitora da UFRN observa uma presença maior da mulher em espaços que requerem qualificação no mercado de trabalho. “A busca de mais escolarização em nível superior e em cursos de qualificação é uma estratégia da mulher para se fazer presente no mercado de maneira qualificada, e não um “favor” da sociedade. Tanto, que as estatísticas de matrículas no ensino superior revelam uma maioria feminina. Considero essa uma forma saudável e corajosa da mulher buscar sua cidadania plena. A qualificação tem feito com que a mulher ingresse em diversos mercados de trabalho e em vários setores. São excelentes no que fazem. Formam grandes quadros docentes na educação básica e em muitas áreas da educação superior, por exemplo. Porém, observa-se que em alguns setores, mesmo quando apresenta qualificação igual à do homem, o salário da mulher é inferior. 
Creio que a escolarização tem sido um fator determinante para que outros direitos sejam garantidos e respeitados. No entanto, as questões não são apenas salariais. As condições de trabalho e o respeito ao ser mulher continuam sendo reivindicadas”. 

Ângela Paiva entende que um dos principais problemas ainda existentes na sociedade é a violência contra a mulher. “As ações da sociedade são as ações de cada cidadão e das instituições nela organizadas. Um dos principais problemas vivenciados na sociedade é a violência contra a mulher. Atualmente esse problema está mais visível em decorrência de leis, como a Maria da Penha, fruto também de uma corajosa mulher, vítima do seu marido. As lutas contra o preconceito e o assédio sexual são travadas continuamente no contexto social, na família, na escola, na rua e no trabalho, mas precisam avançar. As ações precisam ser educativas, para que imprimam mudanças comportamentais e culturais no âmbito familiar e escolar e, também organizacional, do trabalho. Mas, necessárias também são as ações ou determinações legais para que a violência não seja o fantasma por trás de cada porta onde mora, estuda ou trabalha uma mulher”. 

O importante é que as conquistas obtidas até agora não levem a uma acomodação por parte das mulheres, avalia a reitora da UFRN. “Gostaria de frisar, primeiro, que as questões concretas da luta da mulher não reforçam e nem nos colocam na condição de vítima, porque temos consciência de que somos fruto sensível de uma sociedade patriarcal. Louvável, nessa história, é que não nos acomodamos às condições desfavoráveis a nós mulheres e essa nossa “sensibilidade”, que podemos considerá-la também um “estado de consciência” nos possibilita enxergar a nossa condição de ser biológico diferente, porém politicamente, no sentido filosófico, igual ao homem. Ou seja, agimos e lutamos quando algo não vai bem ou nos incomoda". 

"Em muitos casos lutar por direitos nossos é uma questão não apenas de viver, mas de sobreviver e de não morrer. Lembro (agora) de uma pergunta que não cala para a mulher: por que temos que conquistar o direito de 'sermos' o que queremos ser? Observar a história e o contexto social explica que avançamos por "conquistas". Não precisava ser assim, no entanto, assim se constituiu a sociedade contemporânea. Nesse processo, o nosso grande desafio é sermos cidadãs no sentido pleno. Podermos pensar, escolher, decidir e ter o respeito do outro, independente de seu gênero”, completa a reitora Ângela Paiva.


Repercussão da participação da reitora Ângela Paiva na matéria especial da Revista Foco e no evento Destaque Potiguar em texto divulgado pela Agência de Comunicação da UFRN 

Ângela Paiva e o diretor da Revista Foco
Entre as 15 mulheres homenageadas na noite dessa quarta-feira, 15, pela Revista Foco Nordeste, a reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Ângela Maria Paiva Cruz, declarou à publicação que os direitos e conquistas ainda não barraram a censura, a violência e as outras formas de discriminação à mulher. 

Assim como gestoras públicas, educadoras e empresárias, Ângela Paiva recebeu das mãos do diretor da revista, Marcus César de Morais, o Troféu Mulher Destaque Potiguar 2017. Em nome das homenageadas, a vereadora de Natal Wilma de Farias falou sobre as diferenças salariais entre homens e mulheres que ocupam os mesmos cargos e dedicou a premiação às mulheres anônimas que batalham diariamente pelo sustento familiar.

A homenagem aconteceu no auditório da Federação do Comércio do RN (Fecomércio) na presença de lideranças políticas, convidados especiais e familiares.

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