quinta-feira, 8 de março de 2018

Intolerância: Professor da UFRN proíbe estudante de assistir à aula

A estudante discriminada e o professor Alípio
Repercute em todo o país o fato ocorrido em sala de aula do setor II da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), na aula do curso de Ciências Sociais, na noite da terça-feira (6). O profesor Alípio Sousa Filho, mestre e doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Paris René Descartes, proibiu a estudante Waleska Maria Lopes de assistir à sua aula porque ela se fazia acompanhar de sua filha de cinco anos de idade. Segundo o veterano doutor, a criança trazia prejuízo a sua aula tirando o foco da própria Waleska e de outros estudantes.

Com o acontecido, o próprio curso de Ciências Sociais se encontra diante de um veemente contraditório, já que ele advoga o discurso de inclusivo. A estudante, proibida de assistir à aula da disciplina "Introdução à Sociologia" do mestre Alípio Sousa, relatou ter se sentido humilhada diante dos demais alunos. "Me senti muito mal. Minha filha perguntou se não podia assistir às minhas aulas. Se era por causa dela. É uma grande humilhação. A única família dela sou eu. Ela só tem a mim. Foi terrível", afirmou em entrevista ao site G1.

A estudante Waleska disse que o doutor em Ciências Sociais, Alípio Sousa, mandou que ela se retirasse da sala de aula lembrando de que não poderia mais assistir às suas aulas com a criança. Waleska Maria Lopes é natural do Rio de Janeiro e veio para o Rio Grande do Norte, município de Pau dos Ferros, no ano de 2008. No ano passado se mudou para Natal e, disposta a continuar nos estudos, fez o ENEM e conseguiu entrar para o curso de Ciências Sociais na UFRN. Trabalha durante o dia como atendente de telemarketing e deixa a filha numa escola nesse período. Divide o imóvel no qual mora com outras pessoas e cria a filha sozinha.

O que tem tudo para ser uma história de superação esbarrou na noite da terça-feira (6) em uma sala de aula de Sociologia da UFRN, tendo diante de si um professor despreparado para a situação que lhe exigia uma postura prudente e eficaz no ponto de vista do processo de ensino/aprendizagem, tanto para si, como para Waleska, para a criança lamentavelmente envolvida, como para os demais estudantes em sala de aula.

O doutor pela Universidade de Paris René Descartes (referência ao grande filósofo fundamental para a instauração do período da Modernidade), Alípio Sousa Filho, reconhece que proibiu a estudante de voltar para sua aula acompanhada da filha. "Uma criança de cinco anos, todo mundo sabe, é uma criança que fica inquieta. E a aluna tem que se ocupar com a filha. Se ocupa, porque fica vendo a criança levantar, a criança sentar. E, portanto, a criança fica chamando a atenção da aluna, o que faz com que ela não esteja atenta à aula. Além disso, chama a atenção dos demais alunos", se defendeu.

A fala grotesca

O discurso do doutor em Sociologia, Alípio Sousa, para a estudante na frente dos demais alunos foi gravado e mostra certa soberba do profissional de sala de aula. "Encontre uma rede de solidariedes para cuidar da criança. Não consegue essa rede de solidariedade? Repense sua vida. Não tem que estar fazendo Ciências Sociais, não tem que estar estudando na universidade. Você só faz isso se tiver condições. Agora não vai impor à instituição coisas que não são assimiladas pela instituição (...) 'ah, eu sou pobre, não tenho'. Problema seu, a universidade não tem problema com isso, se vire", afirmou com veemência o Alípio.

O "se vire" fala muito do elemento Alípio Sousa Filho, possivelmente ele passe daqui pra frente a ser lembrado pelo "se vire". Esse é o ponto de inflexão no qual o discurso não condiz com a prática, no qual estudar em grandes e famosas universidade não significa nada, mas apenas meio de ampliar a periculosidade do sujeito. O "se vire" é um argumento pernicioso e boçal que impõe distanciamento e diferenças.

Em fala, distribuída pelos alunos, Alipio Sousa Filho também se regozija de sua condição de professor universitário detentor de alto salário (bancado pelo contribuinte) para os padrões do Rio Grande do Norte. ''A palavra aqui é estudar, discutir comigo as ideias, aprender comigo. Vocês estão em uma universidade pública, não pagam um centavo para estar aqui. Vocês têm professores com salários caríssimos, meu salário é de R$ 20 mil. Um professor que entra agora ganha R$ 10 mil. Ar condicionado, WIFI, luz, restaurante, biblioteca. Vocês são caros. Aí você vem desenhar na universidade, na sala de aula, e achar que, como aluno, pode impor o modo de ser das coisas? Na sala de outro! Na minha não'', afirmou.

O discurso esnobe de Alípio também coloca em xeque a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, já que pode se tratar de uma visão compartilhada por outros professores. A UFRN, é bom que se diga, não é de Alípio (que é um simples empregado do povo como todos os outros professores que ali se encontram), não é pertencente com exclusividade a nenhum professor, e até que se prove o contrário (desafio que Alípio devia enfrentar), é uma propriedade do povo brasileiro localizada no Rio Grande do Norte.   

sexta-feira, 2 de março de 2018

Educadora analisa livro Programa Exame de Admissão

Maria das Graças Baracho e o livro
Pauta: Tadeu Oliveira

Matemática, Português, História e Geografia eram de fato os protagonistas do famoso livro "Programa de Exame de Admissão" que marcou a vida de milhões de brasileiros por décadas. Embora já parte de um passado que não tem como retornar, o livro é observado como consistente naquilo que se propunha a ser - um conjunto de conteúdos fundamentais para o exercício da prática ensino/aprendizagem nas escolas brasileiras envolvendo alunos e professores no período de transição entre o primário (hoje, primeiras séries do Fundamental) e o ginásio (hoje, últimas séries do Fundamental).

A educadora Maria das Graças Baracho analisa o livro sob os aspectos do tempo no qual foi feito e do lugar no qual se inseriu. "O lugar e o tempo da produção de um livro são fundamentais para a compreensão do seu conteúdo",diz. No caso, não se considera uma análise do livro enquanto conteúdos apresentados, mas de sua proposta pedagógica.

"Esse livro, em sua 16ª edição, se constituía à época, num manual de orientação para todos os alunos que concluíam a quarta série do ensino primário, o que corresponde hoje as quatro primeiras séries do ensino fundamental, e para ter acesso a 5ª série, necessitava se submeter ao chamado Exame de Admissão", conta Graças Baracho.

O livro trazia todos os conteúdos necessários e exigidos para o exame e na sua composição abrangia conteúdos de português, matemática, história e geografia. A primeira edição ocorreu em 1959, com o título de “Programa de Admissão”, textos organizados pelos professores Aroldo de Azedo, Joaquim Silva, José A. Penteado, Domingo Paschoal Cegalla e Oswaldo Sanglorgi e outros. Antes existia outro livro com nome semelhante e escrito também por renomados professores, editado pelo Editora Brasil S/A no ano de 1943, com mais de 550 edições.

Para a época e de acordo com o objetivo ao que o livro se propunha, que era o de preparar para a série seguinte, no caso, a 5ª série e última do ensino primário, ele representava o que se tinha de mais avançado na década de 1960. Diante da escassez de material didático nas escolas, o livro era um instrumento suficiente para se ser aprovado, desde que o candidato tivesse o seu total domínio. Além dos conteúdos propostos no livro eram acrescidos exercícios de fixação a serem copiados em cadernos e respondidos como forma de testar os conhecimentos de cada candidato.
Livro utilizado para estudar e lecionar

"Fui uma das estudantes que utilizou o livro para estudar para o exame de admissão, como também para lecionar nos anos de 1970 na 4ª série do 1º grau (hoje ensino fundamental) no Colégio Sagrada Família. Esse livro ofereceu muitos subsídios no planejamento de aulas, principalmente nos conteúdos relativos a língua portuguesa e a matemática", relata Graças Baracho, professora com doutorado em Educação.

"Na década de 1980, esse livro ainda era presença em minha casa, pois se constituía numa das fontes de pesquisa dos meus filhos, estudantes das 3ª e 4ª séries do 1º graus. Apesar do livro favorecer a ampliação dos conhecimentos, não podemos deixar de reconhecer que o exame de admissão era uma estratégia de seletividade da população jovem, pois não sendo aprovado no exame, o aluno não tinha direito de dar continuidade aos estudos para cursar a 5ª série e último ano do antigo ensino primário", completa Maria das Graças Baracho.

Cartilha Caminho Suave

Na terça-feira, 27 de fevereiro, se comemorou (se é que se tem algo a comemorar) o Dia do Livro Didático. Nesse contexto vale a pena lembrar da famosa cartilha Caminho Suave, atualmente publicada pela Edipro. Criada em 1948, por Branca Alves de Lima (1911-2001), educadora brasileira, a cartilha foi utilizada como livro oficial pelo governo federal para alfabetização durante quase cinquenta anos, alcançando uma marca de mais de 40 milhões de exemplares vendidos e 132 edições.

A autora formou-se na Escola Normal do Braz (atual Escola Estadual Padre Anchieta), São Paulo, em 1929, e lecionou por quinze anos. Ela desenvolveu a Caminho Suave baseada em sua experiência com os alunos em classe, e depois veio a fundar a própria editora. A intenção da publicação era extinguir o analfabetismo no Brasil. Não conseguiu, obviamente. O analfabetismo é algo intrínsico ao próprio modo de encarar a vida do brasileiro.

Com esse propósito de extrema ambição (extinguir o analfabetismo no Brasil a partir de uma cartilha), o projeto partiu para utilizar ilustrações que se assemelham às letras, e foi nomeado pela própria Branca como “Alfabetização pela Imagem”, assim o aluno faria a associação por imagens e palavras-chave. Os discentes automaticamente vinculavam a letra com a imagem, como exemplo, o rabo de um cachorro era desenhado a partir da letra “c”, ou mesmo, a alça da jarra a partir da letra “j”.

O sucesso do método fácil fez com que esta cartilha obtivesse a classificação de multifuncional, alfabetizando crianças, jovens e idosos. E é usada por estrangeiros em programa de alfabetização solidária.