sexta-feira, 2 de março de 2018

Educadora analisa livro Programa Exame de Admissão

Maria das Graças Baracho e o livro
Pauta: Tadeu Oliveira

Matemática, Português, História e Geografia eram de fato os protagonistas do famoso livro "Programa de Exame de Admissão" que marcou a vida de milhões de brasileiros por décadas. Embora já parte de um passado que não tem como retornar, o livro é observado como consistente naquilo que se propunha a ser - um conjunto de conteúdos fundamentais para o exercício da prática ensino/aprendizagem nas escolas brasileiras envolvendo alunos e professores no período de transição entre o primário (hoje, primeiras séries do Fundamental) e o ginásio (hoje, últimas séries do Fundamental).

A educadora Maria das Graças Baracho analisa o livro sob os aspectos do tempo no qual foi feito e do lugar no qual se inseriu. "O lugar e o tempo da produção de um livro são fundamentais para a compreensão do seu conteúdo",diz. No caso, não se considera uma análise do livro enquanto conteúdos apresentados, mas de sua proposta pedagógica.

"Esse livro, em sua 16ª edição, se constituía à época, num manual de orientação para todos os alunos que concluíam a quarta série do ensino primário, o que corresponde hoje as quatro primeiras séries do ensino fundamental, e para ter acesso a 5ª série, necessitava se submeter ao chamado Exame de Admissão", conta Graças Baracho.

O livro trazia todos os conteúdos necessários e exigidos para o exame e na sua composição abrangia conteúdos de português, matemática, história e geografia. A primeira edição ocorreu em 1959, com o título de “Programa de Admissão”, textos organizados pelos professores Aroldo de Azedo, Joaquim Silva, José A. Penteado, Domingo Paschoal Cegalla e Oswaldo Sanglorgi e outros. Antes existia outro livro com nome semelhante e escrito também por renomados professores, editado pelo Editora Brasil S/A no ano de 1943, com mais de 550 edições.

Para a época e de acordo com o objetivo ao que o livro se propunha, que era o de preparar para a série seguinte, no caso, a 5ª série e última do ensino primário, ele representava o que se tinha de mais avançado na década de 1960. Diante da escassez de material didático nas escolas, o livro era um instrumento suficiente para se ser aprovado, desde que o candidato tivesse o seu total domínio. Além dos conteúdos propostos no livro eram acrescidos exercícios de fixação a serem copiados em cadernos e respondidos como forma de testar os conhecimentos de cada candidato.
Livro utilizado para estudar e lecionar

"Fui uma das estudantes que utilizou o livro para estudar para o exame de admissão, como também para lecionar nos anos de 1970 na 4ª série do 1º grau (hoje ensino fundamental) no Colégio Sagrada Família. Esse livro ofereceu muitos subsídios no planejamento de aulas, principalmente nos conteúdos relativos a língua portuguesa e a matemática", relata Graças Baracho, professora com doutorado em Educação.

"Na década de 1980, esse livro ainda era presença em minha casa, pois se constituía numa das fontes de pesquisa dos meus filhos, estudantes das 3ª e 4ª séries do 1º graus. Apesar do livro favorecer a ampliação dos conhecimentos, não podemos deixar de reconhecer que o exame de admissão era uma estratégia de seletividade da população jovem, pois não sendo aprovado no exame, o aluno não tinha direito de dar continuidade aos estudos para cursar a 5ª série e último ano do antigo ensino primário", completa Maria das Graças Baracho.

Cartilha Caminho Suave

Na terça-feira, 27 de fevereiro, se comemorou (se é que se tem algo a comemorar) o Dia do Livro Didático. Nesse contexto vale a pena lembrar da famosa cartilha Caminho Suave, atualmente publicada pela Edipro. Criada em 1948, por Branca Alves de Lima (1911-2001), educadora brasileira, a cartilha foi utilizada como livro oficial pelo governo federal para alfabetização durante quase cinquenta anos, alcançando uma marca de mais de 40 milhões de exemplares vendidos e 132 edições.

A autora formou-se na Escola Normal do Braz (atual Escola Estadual Padre Anchieta), São Paulo, em 1929, e lecionou por quinze anos. Ela desenvolveu a Caminho Suave baseada em sua experiência com os alunos em classe, e depois veio a fundar a própria editora. A intenção da publicação era extinguir o analfabetismo no Brasil. Não conseguiu, obviamente. O analfabetismo é algo intrínsico ao próprio modo de encarar a vida do brasileiro.

Com esse propósito de extrema ambição (extinguir o analfabetismo no Brasil a partir de uma cartilha), o projeto partiu para utilizar ilustrações que se assemelham às letras, e foi nomeado pela própria Branca como “Alfabetização pela Imagem”, assim o aluno faria a associação por imagens e palavras-chave. Os discentes automaticamente vinculavam a letra com a imagem, como exemplo, o rabo de um cachorro era desenhado a partir da letra “c”, ou mesmo, a alça da jarra a partir da letra “j”.

O sucesso do método fácil fez com que esta cartilha obtivesse a classificação de multifuncional, alfabetizando crianças, jovens e idosos. E é usada por estrangeiros em programa de alfabetização solidária.

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