quinta-feira, 21 de junho de 2018

Macaíba avança para ter sua primeira escola indígena

Domingos Sávio fala em debate sobre escola indígena
(Foto: José Luiz)
Por José Luiz

Os índios Tapuia da comunidade do Tapará, em Macaíba, caminham a passos largos para terem em seu território a primeira escola pública indígena do município. As ações que estão sendo desenvolvidas tem à frente, pelo âmbito da Prefeitura de Macaíba, o secretário da Educação, sociólogo Domingos Sávio, e buscam avançar com qualidade social na política pública de resgate e valorização das tradições e da cultura dos índios, que são verdadeiramente ancestrais da terra, mas também são cidadãos brasileiros e macaibenses dos tempos atuais.

A comunidade indígina de Tapará, já reconhecida pela Funai (Fundação Nacional do índio), encaminha agora junto a municipalidade macaibense lutas antigas por seus direitos básicos à saúde e a educação. O acesso a uma unidade de ensino diferenciada, intercultural, bilíngue/multilíngue e comunitária, é um direito dos povos nativos amparado pela Constituição Federal, LDB, Lei 11.645/2008 e pelo Decreto n. 26/1991.

Na comunidade do Tapará o ensino indígena ocorrerá, inicialmente, na Escola Municipal Luis Cúrcio Marinho, que ainda é uma unidade de ensino regular de Macaíba. Segundo o secretário Domingos Sávio, a transformação deste estabelecimento em escola indígena teve início há pouco tempo porque o município não tinha sistema de ensino próprio. “Com a criação do Sistema de Ensino de Macaíba, a Coordenação da Educação de Jovens e Adultos, EJA, recebeu a atribuição de coordenar também a Educação Escolar Indígena, a Quilombola e a Diversidade”, explica o secretário.

Para o sociólogo Domingos Sávio, está se avançando, poder público municipal e comunidade indígena, em busca de uma escola que oportunize o saber formal e universal da edução com a interação com os costumes e o saber próprio da cultura de raiz de nossos ancestrais.

Domingos explica que há duas modificações a serem feitas: a burocrática e a pedagógica. A documentação necessária à transição para a escola indígena deverá ser entregue ao Conselho Municipal de Educação até o final deste ano para análise e deliberação. A constituição de currículo específico indígena será feita com a participação da comunidade do Tapará. Serão realizadas audiências públicas com essa finalidade. O secretário tranquiliza os estudantes em relação aos conteúdos da Base Curricular Nacional. “Os conteúdos necessários à formação para os exames federais serão mantidos no contra turno, a escola funcionará em tempo integral”, reforça.

As adequações da secretaria de educação do município devem demorar menos de um ano para serem concluídas. A expectativa é que a implantação ocorra até o início de 2019. Segundo informou o Cacique Luis Catu, o processo de criação da escola indígena da sua aldeia em Canguaretama, demorou mais de 8 anos para ser concluído. Em Macaíba, os vereadores já reconhecem a relevância da causa e já há até proposta de modificar o nome da escola para um nome indígena indicado pelo povo Tapuia.

A equipe técnica, que está à frente do trabalho de avançar para a primeira escola indígena de Macaíba, é liderada pelo professor Rogério Ferreira, está buscando capacitação para dar conta dessa demanda, que não deixa de ser histórica, e tem participado de diversas qualificações e debates, marcando presença inclusive no Encontro Nacional para implementação da Educação Indígena, em Fortaleza.

O secretário Domingos Sávio destaca também a importância da parceria com o Instituto Federal de Canguaretama, que foi essencial para a criação da primeira escola indígena naquele município e que vem orientando os técnicos da Secretaria de educação de Macaíba. Por outro lado, Já foram iniciados os debates sobre a Escola em audiência pública na Câmara Municipal com participação de representantes da comunidade e do movimento indígena do Rio grande do norte.

Concurso público

O secretário de educação informou em primeira mão que o próximo concurso público a ser realizado no município já incluirá vagas específicas para professores indígenas visando suprir a demanda de Tapará.

A palavra do nativo
O índio Tapuia Jerônimo Campelo mostra com orgulho os utensílios do artesanato indígena utilizados em suas manifestações culturais. Josué Jerônimo é filho de dona Benedita, artesã, uma das índias mais idosas do povo Tapuia na comunidade Tapará, em Macaíba.

Ele é funcionário de uma escola federal, mas dedica parte do seu tempo livre a dar oficinas para resgatar e aprofundar os saberes do povo indígena. Falante e desinibido, acolhe a reportagem com simpatia em sua barraca na Feira Indígena do Tapará, onde expôs a importância da educação escolar indígena para o movimento que autodeclara e reafirma o povo do Tapará como índios Tapuia. Ele nos conta com tristeza, e sua mãe reforça os detalhes, que as terras do Tapará, bem como a comunidade vizinha, Lagoa do Mato, pertenciam ao povo Tapuia e que os latifundiários vindos de fora estão desmatando e plantando capim. Perseguidos, os índios foram se espalhando e hoje o movimento indígena tenta restaurar os costumes e tradições e unir o povo em defesa de sua ancestralidade. Para Jerônimo, a implantação da educação escolar indígena é essencial para formar as novas gerações e evitar que a cultura Tapuia se perca. “É também muito importante que o ensino seja feito por pessoas da comunidade, que leve em conta a cultura, os costumes e as particularidades da comunidade”, complementa.

Educação física indígena

A recreação e prática esportiva em unidades de ensino dentro de aldeias seguem rituais próprios, e os Tapuia tem sua contribuição a dar para o ensino da educação física. Além de praticarem a “corroveara” - Corrida da tora, esporte indígena em que correm com um pedaço de tronco de carnaúba (tora) no ombro, os Tapuia também jogam peteca, jogo genuinamente indígena e brasileiro que originou o esporte olímpico badmínton. O índio Jurandir Santos da Silva, ou Jurandir Tapuia, por sua vez, revela gostar também de futebol e futsal. “Há quatro anos fundamos o time dos índios Tapuia e já participamos do campeonato de Macaíba”, afirma orgulhoso exibindo a camisa oficial da equipe e o primeiro troféu conquistado em torneio neste ano.

Mães indígenas

A mãe Adriana da Silva afirmou não se opor em nada. “Nós somos Tapuia, acho interessante que as crianças aprendam a língua indígena. E é muito bom que a escola seja integral porque mantém os nossos jovens na escola o dia todo”. Algumas mães de alunos da escola Luís Cúrcio Marinho que ainda não se declaram indígenas afirmam que não estão informadas de todo o processo, mas esperam que os conteúdos necessários para os exames das escolas federais sejam mantidos.

Movimento indígena do RN

José Luiz Soares, ou Cacique Potiguara Luiz Catu, é líder do Movimento indígena do RN e esteve na audiência pública na Câmara de vereadores de Macaíba. Ele declara que esta luta por educação escolar indígena no Tapará é parte de um movimento maior, que começa a se organizar ainda no ano 2000 entre os municípios de Goianinha e Canguaretama, na Aldeia Catu.

“A busca de políticas públicas para o povo indígena do RN intensificou-se em 2005 com a realização da primeira Audiência pública voltada para a questão indígena na Assembléia Legislativa do RN. Na ocasião apresentamos um abaixo-assinado com pontos estratégicos da nossa luta. Reivindicávamos que os governos federal, estaduais e municipais, além das universidades e demais instituições, reconhecessem os povos aldeados e as etnias existentes no RN. A partir dali tivemos várias conquistas, entre ela elas a implantação da primeira escola indígena do RN em nossa aldeia Catu e conseguimos trazer a Funai para o RN”, relembra Luís.

Atualmente o movimento indígena integra a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB e tem representantes nas principais organizações e entidades de defesa dos índios no país. No RN são realizadas assembleias a cada dois anos, nas quais os 9 povos indígenas têm a oportunidade de debater com todos os órgãos estaduais e municipais as políticas públicas para a saúde, a educação e o etnodesenvolvimento.

A Audiência Pública por Educação Escolar Indígena de Qualidade, realizada pela Câmara Municipal de Macaíba, no dia 08/05, foi a terceira no estado. A primeira aconteceu em Canguaretama e a segunda foi em João Câmara. Neste ano de 2018 várias audiências ainda serão realizadas com o mesmo objetivo. “A Educação Escolar Indígena de Qualidade é uma forma de mudar, de ter uma resistência maior. As escolas que atendem aos Curumins das nove aldeias precisam se adequar às necessidades de aprendizagem destas comunidades", conclui o Cacique Luis Catu.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Livro de grupo de pesquisa de Arquitetura da UFRN trata das Secas, da Natureza e do território

Grupo de Pesquisa História da Cidade, do Território e do Urbanismo (HCUrb), do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), lança o livro "Contra as Secas: Técnica, Natureza e Território". O lançamento acontece nesta quinta-feira (7), às 16h30, no Centro de Convivência da UFRN, em Natal. O livro é fruto de mais de 10 anos de trabalho de um dos importantes eixos de pesquisa do HCUrb e cruza campos temáticos da história urbana, da arquitetura, do urbanismo e da problemática das secas no Brasil.

Capa do livro e convite para lançamento
A obra versa sobre o grande desafio de abordar "as pesquisas e discussões sobre os ciclos de modernização urbana desde fins do século XIX quanto para as que tratam da construção das chamadas questões nacionais e da Cultura Técnica moderna no país".

O Grupo de Pesquisa História da Cidade, do Território e do Urbanismo (HCUrb, Depto de Arquitetura, UFRN),a Cooperativa Cultural Universitária do RN e a Editora Letra Capital convidam V. Sa. para o lançamento do livro Contra as Secas: Técnica, Natureza e Território.

O livro marca o início das comemorações dos 20 anos de atividades do Grupo HCUrb, que tem a coordenação da professora Ângela Lúcia Ferreira, e vem construindo desde seu início vários estudos, reflexões e contribuições sobre a formação do território de Natal, do Rio Grande do Norte e do Nordeste. Nesse contexto, tem contribuído com a circulação e usos dos saberes técnicos da engenharia, arquitetura e urbanismo no Brasil, e produção material e simbólica de suas cidades, estruturas e paisagens.

O lançamento da obra tem também a parceria da Cooperativa Cultural Universitária do RN e da Editora Letra Capital.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Apodi: Estudantes de escola estadual resgatam a memória do povo

Estudantes buscam resgatar cultura do povo
A força das tradições do campo, o contato direto com a natureza, o rústico e o belo no Lajedo Soledade, o verde da Chapada, as crenças e as danças, os costumes de um povo que se mantém firme no presente buscando preservar seu passado, e já em preparação para seu futuro. Esse conjunto de fatores está mobilizando os estudantes da Escola Estadual Sebastião Gomes de Oliveira, localizada no rico e histórico município de Apodi, na região do Médio Oeste do Rio Grande do Norte.

A partir de coleta de relatos de antigos moradores da zona rural do município, envolvendo depoimentos, captação de imagens e contatos com objetos, notas e documentos que remontam ao tempo passado, os estudantes do 7º e 9º ano do Ensino Fundamental avançam no resgate de tradições e costumes culturais que marcaram a viva do povo de sua terra.

O objetivo do trabalho é montar o “Memorial da Gente” e a ação está se desenvolvendo no tradicional Distrito de Melancias, na zona rural do município. O projeto “Memorial da Gente – Resgate de memórias afetivas e preservação do patrimônio histórico” é também o finalista do Desafio Criativos da Escola.

O percorrer das comunidades em busca de dados de uma história que permanece viva, já que tem continuidade em nosso próprio dia-a-dia, os estudantes montaram e decoraram uma carroça típica da terra para, com ela, visitar as pessoas idosas da zona rural. Visita que tem como principal objetivo ouvir os idosos e receber (desfrutar) de suas lembranças. Com o teor dos depoimentos obtidos, os jovens alunos fazem o resgate dos acontecimentos particulares e marcantes que fizeram a história da comunidade. O resgate serve também para estabelecer vínculos com os idosos e para uma melhor compreensão do valor histórico de documentos antigos, objetos, coisas e móveis de um tempo que já passou, mas que continua se evidenciando no presente. Observando as “velhas-novas” informações, os estudantes estão percebendo a importância da preservação da cultura, da linguagem e das tradições locais na manutenção de uma entidade de caráter coletivo regional.

O compartilhamento das descobertas está sendo feito pelos jovens alunos por meio de um museu fotográfico itinerante e um outro museu que disponibiliza as imagens de forma virtual. Os estudantes também listaram expressões e palavras típicas da região através da criação de uma Dicionário de Verbetes e Palavras: “O Melanciês”.

O projeto, devidamente documentado e catalogado, foi apresentado pelos alunos à Câmara de Vereadores de Apodi, com o objetivo de conseguir sua preservação como patrimônio histórico do município. O “Memorial da Gente” continua vivo neste ano de 2018 e já organizou o Festival de Teatro e Danças Populares, que teve a promoção da 13ª Diretoria Regional de Educação (13ª Dired), órgão da Secretaria da Educação do RN, sediado em Apodi.

Desafio Criativos da Escola

A 4ª edição do projeto Desafio Criativos da Escola está com inscrições abertas e estudantes e educadores interessados têm até o dia 1º de outubro para enviarem suas ações. No ano de 2017, o projeto Desafio Criativos da Escola, do qual o “Memória da Gente” dos estudantes da Escola Estadual Sebastião Gomes de Oliveira foi finalista, recebeu 1492 projetos de todas as regiões do Brasil.

Instituto Alana

O projeto Desafio Criativos da Escola é uma iniciativa do Instituto Alana, organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atua incentivando programas que busquem a garantia de condições para a vivência plena da infância. O Instituto foi criado em 1994 e é mantido pelos rendimentos de um fundo patrimonial desde 2013.